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Juan de Herrera

9,00 inc. VAT

Domingos Tavares
ISBN 9789729901980
Dafne
Capa mole, 140 pp, 15,0×22,5 cm
Portuguese
2005

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Juan Bautista de Toledo estava bem posicionado para desempenhar papel fundamental na definição de uma arquitectura representativa da autoritária monarquia católica quando foi chamado de Itália por Filipe II para conceber as casas do rei e elevar Madrid à condição de centro do império. Esperto em traçados italianos e na condução das práticas construtivas, não se revelou à altura da complexa tarefa em que foi investido. Assaltado pela tragédia, perdeu convicções e capacidade de resistência à dura realidade, que consistia em inverter as práticas tradicionais instaladas, para se assumir como primeiro arquitecto de Espanha.

Foi Juan de Herrera, jovem fidalgo de fracas posses e muitas ambições, quem acabou por ocupar esse lugar. Habilidoso, forjou-se na técnica, mas os caminhos do mundo despertaram-no para a ciência que explica e suporta o engenho, moldando uma personalidade atenta, combativa e lúcida. Chegou à arquitectura numa atitude de observador operativo, para cumprir responsabilidades que lhe eram conferidas em momentos de dificuldade, na prossecução dos objectivos reais. Usou os conhecimentos da matemática e da mecânica, da geometria e da ordem lógica, para dar corpo às rigorosas concepções do tempo, através da prática sistemática e organizada do projecto.

Não é certo se por detrás do seu posicionamento disciplinado havia um espírito de artista, no sentido em que o entendemos como graciosidade e simpatia nas formas imaginadas. Ou se a expressão da inteligência criativa ao serviço dos deuses constrói de facto um quadro para a felicidade humana. Mas a importância de Juan de Herrera para a história do ciclo moderno da arquitectura é desde logo evidente pelo trabalho de sistematização dos instrumentos de projecto, nomeadamente os que se organizam pelo desenho, enquanto sistema para comunicação dos desígnios formais aos executores das obras. A complexidade do grande estaleiro do Escorial gerou novas regras de fazer e a necessidade de superação das hierarquias medievais, pondo o arquitecto intelectual, artista ou cientista inventor das ideias para a edificação, no centro de todas as decisões relacionadas com a produção da forma.

Há que entender que ao princípio da autoridade absoluta do rei não faltavam hesitações e dúvidas, o que o levava a recorrer, naturalmente, à opinião dos seus colaboradores e conselheiros na hora das grandes decisões. Juan de Herrera foi sempre um apoio discreto às suas escolhas, mesmo quando o soldado da guarda ou o inventor metalúrgico estava ainda longe de ser reconhecido como o competente arquitecto autor do novo estilo de Filipe II.

Um dos temas mais debatidos à volta da figura de Herrera no âmbito da formação da imagem da monarquia em Espanha é o da origem do chamado estilo desornamentado. Se, por um lado, podemos identificar a existência de várias circunstâncias de natureza ideológica ligadas à cultura da época, por outro parece necessário encontrar os factores subjectivos determinados pelo carácter de certos artistas que deram expressão à teoria religiosa organizadora dos novos princípios comportamentais das sociedades dos países católicos.

Desornamento e simplicidade nem sempre se enquadram na mesma linha de qualificação arquitectónica. No caso de Herrera, talvez seja mais oportuno levantar as questões de autoridade e disciplina que a sua formação militar ajudou a caracterizar, adoptando para as formas organizadoras do espaço a dureza de uma concepção matemática rigorosa. De facto há grandes diferenças entre a ideia geometrizante e redutora de Herrera e a pura modelação formal de Juan Bautista. Correspondem não só a diferentes momentos da evolução para o modo clássico na arquitectura espanhola, mas também a oportunidades distintas de expressão das sensibilidades surgidas num quadro cultural em permanente transformação. São dois artistas a ilustrar este episódio da história da arquitectura da Idade Moderna na Europa.