-10%

Philibert Delorme

9,00 inc. VAT

Domingos Tavares
ISBN 9789729901911
Dafne
Capa mole, 133 pp, 15,0×22,5 cm
Portuguese
2004

In stock

A arquitectura francesa, na sua passagem dos estilos medievais para a linguagem clássica, não se caracteriza por ser obra «de autor», antes exprime uma tendência para a transformação de ideias e vontades colectivamente assumidas em sectores da sociedade que se podem considerar os «autores colectivos» de novos monumentos, num processo de criação lento, agregando em cada obra de base tradicional os elementos importados que a moda ou necessidades de um tempo sugerem.

Assim também «a arquitectura do Renascimento» chegou a França como uma moda da casa real que transportou consigo mais discurso que teoria, mais imagem circunstancial do que outra sabedoria de fazer. Enquanto os criadores importados de Itália discorriam sobre a modernidade da sua arte nos salões da corte, os construtores iam marcando as obras por adição sucessiva nas tradições de cada tempo, levando os sintomas da crença na maneira gótica até uma idade muito avançada do Classicismo.

Então por que razão eleger Philibert Delorme para expressar os traços fundamentais de uma nova arquitectura na estabilização da Idade Moderna nos senhorios unificados da Gália, se predomina nessa fase a indefinição de autorias? Afinal nem uma só obra deste arquitecto terá persistido que possa traduzir a relevância que teve a sua acção ao serviço dos monumentos de França quando se começava, finalmente, a consolidar a tendência classicista em detrimento do gótico final. Mais do que a pouca obra persistente da enorme quantidade de pequenos e grandes projectos realizados, importa avaliar o impacto que teve na transformação da cultura arquitectónica a personalidade daquele que é em geral considerado o mais importante arquitecto do Renascimento em França. Por um lado, actuando na formação de um modo nacional de interpretar a imparável expansão do Classicismo na Europa, devida a razões filosófico-políticas bem mais largas do que uma moda de fazer igrejas ou palácios. Por outro lado, assumindo-se como paladino de um profissionalismo na área específica da arquitectura, entendida como disciplina autónoma das outras artes visuais no perseguimento da beleza.

Relendo Alberti e através dele compreendendo a memória renascentista de Vitrúvio, Delorme pode expressar, através de um discurso teórico bem ilustrado no seu Premier tome do tratado Architecture, os caminhos de uma profissão exigente enquanto prática artística suportada pela competência científica e técnica e balizada pela teoria reflexiva algo moralista que o seu estatuto de ministro da Igreja lhe conferia.

A arquitectura é uma arte da invenção, e Philibert Delorme foi o mais empenhado e inspirado inventor do seu país à entrada da Era Moderna, contrariando as regras estáticas das corporações ligadas à construção, encetando caminhos libertadores que abriram perspectivas para o desenvolvimento das novas formas. Outro motivo pelo qual é importante o papel por ele desempenhado no quadro da sociedade do seu tempo é o de ter trabalhado na definição de uma ordem francesa na construção do Classicismo europeu, interpretando de perto as ruínas da Antiguidade, para coerentemente ensaiar um modo de fazer próprio do seu espaço cultural.

Usaremos na ilustração do texto vários desenhos de Jacques Androuet du Cerceau, que publicou Les plus excellents bastiments de France. Parece que Delorme não manifestava grande simpatia pelo seu contemporâneo, denunciando os maus retratos feitos por fazedores de desenhos e gravadores ignorantes. Mas foi graças a esse registos, dos castelos de Saint-Maur, de Saint-Léger, de Anet, de Saint-Germain, de Chenonceau e das Tuileries, que foi possível trazer até hoje a parte principal dos trabalhos realizados por Philibert Delorme, consolidando o seu prestígio como o primeiro arquitecto francês do Renascimento.

Colaboração de Vítor Murtinho