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Balthasar Neumann

9,00 c/IVA

Domingos Tavares
ISBN 9789729901928
Dafne
Capa mole, 140 pp, 15,0×22,5 cm
Português
2003

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A arquitectura de Balthasar Neumann não representa a abertura de um novo caminho na história da arquitectura europeia, antes exprime uma síntese dos modos que foram sendo explorados pelos precedentes autores do Barroco da Europa Central. Competiu com a grandiosidade de Versailles nos palácios para os príncipes da Francónia, organizou a articulação dos espaços elípticos nas igrejas à maneira da sua Boémia natal, aplicou a lição renascentista nas composições em geometria simetrizada, explorou a articulação das formas nas mais largas paisagens, jogou com o cromatismo e a luz intensa na criação de atmosferas nos espaços interiores. Recorrendo a uma sabedoria construída na exploração das técnicas, trabalhou o projecto como obra de arte total, como se fosse pauta de música que não deixa margem para equívocos na sua execução. Gémeo espiritual de Johann Sebastian Bach, é mais uma notável personagem da última expressão do Barroco alemão, com o encanto, o rigor e a sensibilidade compositiva que nos deixa suspensos perante o enigma da qualificação da arte.

Por isso elegi Neumann como o principal actor deste momento da arquitectura europeia. Chamei-lhe o último arquitecto barroco. É exagerada a afirmação que pretende tão-só pôr em destaque um momento da história da arquitectura ocidental que, pela extrema intensidade com que trabalha os problemas do espaço na sua relação com os significados sociais que a suportam, anuncia o inevitável passo seguinte, de regresso à essência das formas manuseadas pela capacidade inventiva dos artistas. Ele representa toda uma geração que preencheu a primeira metade de Setecentos no vasto território dos domínios da autoridade espiritual da Igreja de Roma, que perdurou até à ascensão ao poder da burguesia saída da actividade comercial à escala dos oceanos da Terra.

Todo o ciclo clássico que se desenrolou na Europa consistiu numa importação da moda de fazer à italiana em jeito de modelo fingido de «Roma antiga». Nas áreas do Norte ditas germânicas ou saxónicas, foram-se viciando as formas do fazer gótico com a pimenta dos mercadores italianos que atravessavam o continente a partir do Sul. Mas não há só fenómenos de viciação das culturas num único sentido. O contágio dos modos importados pelas sólidas práticas regionais, condicionadas pelo valor intrínseco das permanências socioculturais, vai provocando as especificidades de cada maneira regional, que também funciona para a exportação e contaminação no sentido inverso. Foi o que aconteceu quando os criativos formaram a sua personalidade na lição clássica e no exemplo dos antigos, enquanto liam as experiências dos que ainda lhes estavam próximos. A sua base cultural não deixou de ser profundamente marcada pelos valores empíricos que persistiam no seio das suas comunidades e que, caminhando pelo inconsciente dos comportamentos e atitudes, veio a determinar uma parte substancial do estilo próprio, retirando uniformidade e coerência à importação do clássico.

Por outro lado, a loucura fundamentalista dos contra-reformistas autoritários esbarrou muitas vezes com a vontade de rigor científico e o gosto pela criatividade serena de artistas que, ainda que fiéis aos seus senhores, e modestos na sua presunção, não abdicaram dos actos de inteligência para a produção da obra de arte. Por esse caminho, recusaram o apelo à irracionalidade instintiva, racionalizando o recurso aos modos perceptíveis do fazer. Este é também um aspecto pela qual a obra de Balthasar Neumann me parece não ser original, mas absolutamente exemplar. Ela representa a resistência subtil da atitude inteligente, estudiosa e interventiva que foi estando presente ao longo destes momentos de inovação temática em tempo de renascimentos clássicos. Com a delicadeza de quem cumpre os desígnios dos patronos e a força criativa pessoal capaz de deixar um rasto de beleza sensível no seu percurso de vida.